Voltar para si; o primeiro passo para florescer
- Larissa Carcuchinski

- 27 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Florescer começa no retorno. Antes de expressarmos nossa verdade no mundo — esse movimento vivo que dá um sentido mais profundo à vida — precisamos reencontrar o que ficou perdido em nós. Florescer não é apenas “ser você mesma”; é conseguir expressar essa versão no mundo. E para isso é preciso primeiro voltar para si.
Florescer é permitir que aquilo que é espontâneo, vivo e verdadeiro encontre espaço para existir. Não é sobre perfeição, nem sobre uma vida sem dor — é sobre coerência interna, presença e autenticidade em movimento. E, antes de falar de florescimento, precisamos reconhecer algo essencial: ao longo da vida, vamos nos afastando de nós mesmas sem perceber.
Ao longo dos anos, aprendemos a nos adaptar. A caber. A agradar. A sobreviver. E, na tentativa legítima de pertencer — uma necessidade humana profunda — acabamos abrindo mão, quase sempre de forma inconsciente, de partes essenciais da nossa personalidade. No desespero em nos sentirmos pertencente, deixamos de lado uma necessidade igualmente importante: a expressão autêntica e espontânea no mundo.
Como mulheres, essa auto-poda começa cedo. Muito cedo. Desde pequenas ouvimos o que “deve” ou “não deve” ser feito, o que é “apropriado” e como devemos nos comportar para sermos amadas e aceitas. Até frases aparentemente inocentes como “se você chorar vou ficar triste”, “menina bonita não faz isso”, “que menina feia”, colam no inconsciente e começam a moldar nossa forma de sentir e agir.
Na adolescência, quando pertencer parece vital, esse movimento se intensifica. A roupa certa, o comportamento certo, o jeito certo de existir para ser aceita. Os sonhos começam a ganhar forma, mas muitos deles não nascem de dentro de nós. A influência da família, o desejo de agradar, a imagem social da “mulher de valor” pesam muito mais do que percebemos.
E então surge a pergunta incômoda:
Os teus desejos são realmente teus — ou são projeções do que esperam de você?
Com a entrada na vida adulta, novas camadas surgem: profissão, carreira, relacionamentos, responsabilidades. E novamente, o roteiro social do que significa ser mulher aparece quase como um script pronto. Casar. Ter filhos. Trabalhar fora. Cuidar da casa. Ser forte. Ser compreensiva. Ser independente. Ser magra. Ser vaidosa.
Quantas dessas escolhas foram realmente feitas por você?
E esse roteiro não aparece só nas nossas emoções, ele se confirma nos números. No Brasil, mulheres seguem dedicando quase o dobro de horas ao trabalho doméstico e de cuidado, carregando uma carga mental que raramente é vista ou reconhecida. Ao mesmo tempo, a maioria relata sentir pressão para atender padrões irreais de beleza, além de viver uma autocobrança constante que facilmente vira exaustão. Não é difícil entender por que tantas de nós se afastam de si mesmas: vivemos em uma dinâmica que nos exige muito e valoriza pouco.
E onde fica o espaço para os nossos sonhos e desejos?
Como expressar quem somos em verdade, se não aprendemos nem somos incentivadas a olhar para nós mesmas?
Ao refletir sobre esses dados, fica muito claro que não se trata apenas de escolhas individuais ou de falta de autoconhecimento — existe um contexto inteiro empurrando as mulheres para a exaustão, a autocobrança e o afastamento de si. E é justamente por isso que atravessar esse processo com outras mulheres, em um espaço seguro de troca e guiança, faz tanta diferença: você deixa de remar sozinha contra a maré e encontra força, presença e direção para construir um caminho que é verdadeiramente seu.
Buscar o florescimento, nessa perspectiva, deixa de ser um gesto isolado e passa a ser uma travessia coletiva — um retorno que se fortalece quando é compartilhado.
Quando vivemos muito tempo desconectadas de nós, o corpo sinaliza. Adoecimento mental, físico, emocional e espiritual. A vida perde gosto. A rotina pesa mais do que deveria. A existência vira uma lista de tarefas e demandas a cumprir. Viver vai perdendo o sentido.
Queria poder dizer que isso é incomum, mas não é. Basta olhar para as mulheres que vieram antes de nós, nossas mães e avós, por exemplo. Quantas realmente viveram a vida que queriam? Quantas tiveram permissão para sonhar? Quantas foram levadas pela correnteza de demandas alheias?
Essa correnteza ainda alcança todas nós — mas hoje temos mais recursos e consciência para nadar em outra direção.
O que percebo, na clínica e na vida, é que pouco sabemos sobre exercer essa liberdade de fazer diferente. Mesmo com tantas conquistas, muitas de nós ainda permanecem no caminho da “boa menina”, buscando validação externa e tentando ser aquilo que o mundo espera. Mas é justamente na desobediência do que nos foi imposto que o florescimento começa.
Florescer começa ao recuperar o que foi perdido ou ficou adormecido. É reencontrar nossa espontaneidade. É construir, de dentro para fora, uma vida onde você realmente caiba. Uma vida que te nutra. E deixando bem claro: isso não significa ausência de dor — mas sim, encontrar aquilo pelo qual vale a pena atravessar a dor.
Pelo que você levanta da cama todos os dias?
O que te nutre nos momentos mais difíceis?
O que te dá tesão na vida?
Talvez você já saiba. Talvez precise reencontrar. Talvez essas respostas ainda estejam escondidas em partes tuas que nunca tiveram espaço para se expressar.
Seja qual for o ponto de partida, há caminhos. Caminhos que se abrem quando você decide olhar para dentro e lembrar quem você é. Quando escolhe exercer seu direito de ser livre — de verdade.
Meu compromisso é com o seu — e com o meu — florescimento. E meu convite é que façamos isso juntas.
Em breve, uma comunidade vai nascer. Um espaço para que mulheres intensas, sensíveis e profundamente humanas possam se reencontrar, se fortalecer e florescer. Se você quiser auxílio individual na sua travessia, será um prazer te acompanhar.
Obrigada por ler até aqui.
Que sua caminhada seja gentil e te conduza para o que é verdadeiramente seu.
Referências utilizadas
IBGE – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua, 2022).
Dove Brasil – Pesquisa “Real Beleza” / Real Beauty Study (2020–2023).Dados
Datafolha – Pesquisa “O Corpo das Brasileiras” (2023).
Fiocruz – Estudos sobre Saúde Mental na Pandemia e Pós-Pandemia (2021–2023).
Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) – Relatórios sobre Burnout (2022–2023).
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